quinta-feira, 31 de março de 2011

Testamento

À prostituta mais nova Do bairro mais velho e escuro, Deixo os meus brincos, lavrados Em cristal, límpido e puro... E àquela virgem esquecida Rapariga sem ternura, Sonhando algures uma lenda, Deixo o meu vestido branco, O meu vestido de noiva, Todo tecido de renda... Este meu rosário antigo Ofereço-o àquele amigo Que não acredita em Deus... E os livros, rosários meus Das contas de outro sofrer, São para os homens humildes, Que nunca souberam ler. Quanto aos meus poemas loucos, Esses, que são de dor Sincera e desordenada... Esses, que são de esperança, Desesperada mas firme, Deixo-os a ti, meu amor... Para que, na paz da hora, Em que a minha alma venha Beijar de longe os teus olhos, Vás por essa noite fora... Com passos feitos de lua, Oferecê-los às crianças Que encontrares em cada rua... Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


Solidão

Não é estar só.
É estar com quem nos faz sentir ninguém.
É perder quem nos faz sentir alguém.
É não olhar o espelho que reflecte quem somos nós.
É ouvir o silêncio do tempo que não passa.
É sentir a noite longa entrar pela manhã.
É esquecer que nem sempre temos razão.
É não ouvir mais, não, nunca, talvez.
É sentir que não existe nada mais.
É morrer cada dia, todos os dias.
Não é estar só.
Não, não é.

Óh quanta solidão invade o nosso mundo!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


Abraço

Que seja forte
Do tamanho do mundo.
E como o vento norte
Solte teu Eu vagabundo.
Que seja forte
Do tamanho da imaginação
E como o vento norte
Acabe a tua solidão
Que seja forte
Como a tua paixão
E como o vento norte
Enobrece teu coração.
Que seja forte
Como a tua esperança
E como o vento norte
Desperte a tua criança
Que seja forte
Como essa criança
E como o vento norte
Mesmo que sopre forte
Te traz á lembrança
A vida p´ra além da bonança.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Ninguém pode ficar indiferente. As suas cores, embebidas de uma mensagem forte e sempre actual, capaz de nos transportar, ao mais feliz imaginário, rico de memórias inesqueciveis e muita muita saudade. A minha homenagem ao artista. Malangatana

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

BOAS FESTAS

Zé, festas muito felizes e fartas para que durem o ano inteiro. Um abraço.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


Presença africana

e apesar de tudo
ainda sou a mesma!
livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou
mãe-África!

mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra,
puro e incerto!

a dos coqueiros
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul…

a do desdém
nascendo dos abraços
das palmeiras…

a do sol bom,
mordendo
o chão das ingombotas…

a das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas
longas e floridas…
sim, ainda sou a mesma

a do amor transbordando

pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11… rua 11)

pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos…

sem dores nem alegrias,
de tronco nu e corpo musculoso
a raça escreve a prumo
a força destes dias…
e eu revelo ainda
e sempre, nela
Aquela
longa história inconsequente…

terra!
minha, eternamente!
terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios, baloiçando
mansamente… mansamente

terra!
ainda sou a mesma!

ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!...

Alda Lara (1930-1962)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010


Lágrima

Lágrima,
De alguém que chora e sofre
De alguém que ri e vive.

Lágrima
Que sulca a tez envelhecida
De quem tem ainda esperança
Da vida para lá da lembrança

Lágrima
Que rola qual seixo no leito de um rio
Como bola de uma criança
Saltitando de história em história
Buscando em cada letra
A cor de um arco-íris
De alguém que lhe escute a vida

Ó quantas lágrimas
No cinza do nosso entardecer.